Porto Alegre, 29 de junho de 2017
OU DEIXAR A PÁTRIA LIVRE, OU MORRER PELO BRASIL!
Escrito por Carlos Siegle, o Nenê   

 

 

Divulgação

A frase célebre do Hino da Independência, usada como título deste texto, resume bem o sentimento despertado na nação a partir dos manifestos contra o aumento das passagens em todo o País.

 

O processo já começou apontando para questões mais de fundo do que os centavos a mais no valor do transporte público. Ele só começou por Porto Alegre/RS porque as outras grandes capitais atenderam ao pedido do Governo Federal para que retardassem o reajuste do transporte de fevereiro para junho para não pressionar a inflação galopante já nos primeiros meses do ano.

 

Ledo engano do Governo Central, pois o adiamento jogou o debate sobre o tema das passagens para o mês de abertura da Copa das Confederações. Não foi preciso muito para transformar as mobilizações sobre um tema importante como o do transporte público em inspiração para mobilizações de crítica contra os gastos em obras para a Copa do Mundo.  Migrar desse tema para uma grande discussão a respeito do sistema político/institucional brasileiro foi apenas uma questão de inspiração e oportunidade.

 

Mas por que esse movimento parece tão diferente de outros? Por que nesse caso há muito mais gente nas ruas? Por que essas pessoas não têm uma pauta unificada, uma liderança constituída, a defesa de um segmento, grupo ou interesse específico?

 

Respondo. Porquanto essas características foram exatamente as que afastavam essas pessoas das mobilizações tradicionais. Lideradas por partidos, sindicatos, entidades, segmentos ou até mesmo pela imprensa, essas manifestações sempre tinham algum interesse subentendido, um objetivo claro de favorecimento de alguma instituição, grupo ou pessoa. As redes sociais retiraram do cenário o papel do líder, da direção vertical, das estruturas formais de organização social. A certeza de não estar sendo manipulado levou as novas multidões às ruas.

 

Estamos vivendo uma explosão de cidadania até então nunca vista em nossa, ainda adolescente, democracia. Nossas instituições estão em xeque. O velho discurso de que vivíamos em uma sociedade alienada, apolítica, adormecida, sem senso crítico desmanchou-se como um castelo de areia, de uma semana para a outra. Na verdade, os erros, omissões e desmandos do sistema institucional estabelecido no País jogaram a população em um estágio de desilusão em que nada e nenhuma instituição formal (seja ela partido de esquerda ou direita, entidades sociais ou sindicais ou lideranças carismáticas) pareciam puras o suficiente para representá-los, esse segmento da população não admitia mais ser usado ou manipulado em nome de interesses que em última análise só fortaleciam o “status quo".

 

Diante das constatações acima, é preciso saber reconhecer com humildade e serenidade que precisamos reinventar o sistema e oferecer respostas rápidas e reais à população ou daremos espaços para soluções radicais que, historicamente em todos os Países e em todos os tempos, tiveram resultados ainda mais devastadores para a sociedade.

 

Pautas como uma Reforma Política real, mudança nos processos de combate à corrupção, pública e privada, com penas severas e rápidas aos responsáveis, Reforma Tributária que devolva ao cidadão o imposto pago em serviços qualificados, uma imprensa menos comprometida com o poder econômico, capaz de recuperar a confiança da população na qualidade de sua produção jornalística.

 

Porém, a partir desses temas alguns questionamentos são fundamentais. Que Reforma Política? Não penso que o modelo defendido pelo Poder Central seja o melhor para o Brasil, pode ser o melhor para o partido do governo, mas não para o país. Necessitamos de uma reforma que reduza a pressão e a dependência do poder econômico e político sobre os eleitos. Uma Reforma Tributária precisa favorecer o cidadão que paga impostos e não recebe os serviços na mesma proporção, não pode servir para o grande empresário aumentar suas margens de lucros ou aumentar o monopólio no seu setor ou para o Poder Central concentrar ainda mais os recursos que deveriam estar nos municípios.

 

Lembro muito bem quando foi a última vez que a sociedade brasileira e suas instituições foram parar no divã. Foi em 2005, quando o então deputado federal Roberto Jéferson denunciou o mensalão, e todo o país passou a entender que não existem salvadores da pátria. Foi há oito anos que o sistema atual começou a cair e agora essa marola de 2005 transformou-se em um tsunami que poderá consumir nossa jovem democracia.

 

O Brasil está, novamente, no divã! Em momentos como esse, em que as instituições estão em xeque, o movimento natural das pessoas é apontar os erros alheios, enxergar soluções na mudança de posturas dos outros. Siceramente, entendo que essa é uma postura que ajudou a nos empurrar para esse momento.

 

Acredito que o que precisamos é que cada um volte-se para dentro de si, para dentro de suas instituições, sejam elas: sua casa, partidos, entidades sociais, sindicais, ONG's, governos ou empresas. Temos a necessidade de reavaliar nossos processos e entender em que medida nosso modelo de atuação e de intervenção na sociedade é responsável pelo que está posto.

 

Teremos que avaliar o quanto de responsabilidade temos no modelo estabelecido, até onde nos beneficiamos com o desinteresse aparente, com a despolitização, com a alienação.  A partir dessas respostas teremos a oportunidade de fazer a nossa revolução interna, essa reforma que parece tão clara para todos, deve começar dentro na nossa casa.

 

Você separa o seu lixo? Participa de reunião de condomínio ou frequenta a associação de bairro? Para na faixa de pedestre e não joga lixo no chão? Vota com consciência, fiscaliza seu parlamentar e não torna a apoiá-lo se ele não cumpre com os compromissos assumidos?

 

Se você faz parte de uma entidade social ou partido político, você se compromete com as decisões tomadas? Exige participação nas decisões? Questiona seus dirigentes quando um caminho tomado parece o errado? Você que é dirigente, dá espaço para essas "intervenções", debate os rumos e aceita a opinião do conjunto?

 

Entendo que vivemos um momento especial, uma oportunidade que se apresenta no mundo inteiro no início deste novo século. Desde o despertar da Primavera Árabe, passando pelas crises Européias e Americana e chegando ao despertar do Gigante que dormia em berço esplêndido chamado Brasil. Percebemos que, mais que uma reação a crises econômicas, estamos vivenciando uma revolução de pensamentos que traz na sua essência um debate ético, de discussão de valores, um debate de rumos para essa sociedade que no caminho que está, matará o planeta.

 

Precisamos aproveitar essa oportunidade. Poderemos sair dessa crise mais fortalecidos, com nossas instituições consolidadas e com nossa democracia mais madura. Depende da capacidade de cada um fazer a sua autoavaliação. Mudar o seu processo interno é fundamental para estar legitimado para opinar no processo alheio. Quem o fizer com competência e com a coragem de “cortar na própria carne" estará mais preparado para enfrentar o novo País que emergirá quando a fumaça das bombas de gás e dos contêineres incendiados baixar.

 

Ah, e o vandalismo? Na minha opinião, os vândalos são meros oportunistas nesse processo, sejam eles os que depredam o patrimônio público ou privado na rua ou os que desviam o seu dinheiro nos escaninhos da corrupção. “Bora mudar o mundo, galera! Porque embora a mobilização esteja na rede social, a luta real está nas ruas!”.