Porto Alegre, 29 de junho de 2017
As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres
Escrito por Tanise Amália Pazzim   

Recentemente li o livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres”, de Ana Isabel Alvares Gonzalis, que traz uma análise das condições históricas em que se produziu o nascimento do Dia Internacional da Mulher. Além disso, pesquisei diversos artigos e textos sobre as origens do Dia Internacional das Mulheres para buscar uma melhor compreensão dos acontecimentos.

 

Para minha surpresa, não se sabe bem ao certo como iniciou a comemoração do dia da mulher. Ao contrário do que muitos pensam, o Dia Internacional da Mulher não se apoia em um acontecimento isolado. Há diversos mitos em torno da data como um incêndio ocorrido em uma fábrica e manifestações de operárias no setor têxtil. Entretanto, foi uma série de fatores históricos que mobilizou a criação do Dia Internacional da Mulher, conforme relato a seguir.


Em 3 maio de 1908 em Chicago, nos Estados Unidos, se comemorou o primeiro "Woman's day” (Dia da Mulher), presidido por Corinne S. Brown, documentado pelo jornal mensal The Socialist Woman, no Garrick Theather, com a participação de 1500 mulheres que "aplaudiram as reivindicações por igualdade econômica e política das mulheres; no dia consagrado à causa das trabalhadoras". O dia foi dedicado à causa das operárias, denunciando a exploração e a opressão das mulheres, mas defendendo, com destaque, o voto feminino. Defendeuse a igualdade dos sexos, a autonomia das mulheres, o direito de voto para as mulheres, dentro e fora do partido.


Já em 1909, o “Woman's Day” foi atividade oficial do partido socialista americano e organizado pelo comitê nacional de mulheres, comemorado em 28 de fevereiro de 1909. O material de publicidade da época convocava o "Woman suffrage meeting", ou seja, um encontro em defesa do voto das mulheres, em Nova York. As socialistas americanas sugerem um dia de comemorações no último domingo de fevereiro. Assim, o “Woman's day”, no início, registra várias datas e foi ganhando a adesão das mulheres trabalhadoras, inclusive grevistas e teve participação crescente.


Em 1910, ocorreu uma paralisação na cidade de Nova York na Fábrica  Triangle Shirtwaist Company. No setor têxtil, as condições de trabalho eram deploráveis. A jornada de trabalho era das oito da manhã às seis e meia da tarde, com 30 minutos de intervalo para refeição. A carga horária semanal, que normalmente era de 56 horas poderia chegar a 70 horas na temporada de maior movimento. A paralisação começou no dia 27 de setembro de 1909, e os empregados da fábrica foram proibidos de entrar no trabalho sob o pretexto de que não havia tarefas para realizar naquele dia e declararam greve, iniciando um protesto ao qual uniram 40 mil trabalhadores. Isso desbaratou completamente a indústria têxtil, não apenas no Estado de Nova York, mas em todo o país, pois a manifestação também teve grande adesão nas cidades de Chicago, Rochester, Clevelend e Filadelfia, entre outras. Foram 13 semanas de greve. No dia 15 de fevereiro de 1910, a greve foi oficialmente encerrada. Trezentas e trinta e nove firmas tinham feito acordos com os trabalhadores; 13 empresas, entre elas a Triangle Shirtwaist Company, não chegaram a nenhum acordo com seus empregados. Essa foi a primeira greve de mulheres de grande amplitude nos Estados Unidos, denunciando as condições de vida e trabalho, e demonstrou a coragem das mulheres costureiras, recebendo apoio massivo do movimento sindical e do movimento socialista.


Também em 1910, os jornais noticiaram a comemoração do “Woman's day” em Nova York, em 27 de fevereiro de 1910, no Carnegie Hall, com 3.000 mulheres, onde se reuniram as principais associações em favor do sufrágio. O encontro foi convocado pelas militantes socialistas mas contou também com participação de mulheres não socialistas. Também participaram dessa comemoração várias operárias do setor têxtil que há poucos dias haviam terminado uma longa greve, que durou de novembro de 1909 a fevereiro de 1910, terminando 12 dias antes do Woman's Day. Muitas dessas operárias participaram do Woman's Day e engrossaram a luta pelo direito ao voto das mulheres (conquistado em 1920 em todo os EUA), mas como se pôde ver, não foi a greve que motivou a criação do woman’s day, como aparece equivocadamente algumas vezes.


Em agosto de 1910, durante a Segunda Conferência de Mulheres Socialistas, Clara Zetkin, dirigente socialista alemã, e outras militantes, propõem que o “woman's day” ou “women's day” se torne "uma jornada especial, uma comemoração anual de mulheres, seguindo o exemplo das companheiras americanas", sem a indicação de uma data específica. Aprovase, assim, um Dia Internacional das Mulheres, para ser organizado em todos os países, com a reivindicação central sendo o direito de voto para as mulheres. A proposição foi divulgada no jornal alemão “A igualdade”, de 28/08/1910.


Em 25 de março de 1911 (e não 08 de março de 1910) ocorreu um incêndio na fábrica que se chamava The Triangle Shirtwaist Company localizada na cidade de Nova York. Ocupava três andares superiores dos 10 andares que tinha o Edifício. Era um dos edifícios mais altos, e a fábrica Triangle tinha mais de 500 empregados, em sua maioria mulheres jovens imigrantes entre os 16 e 24 anos. A estrutura, assoalho, molduras da janela e portas da fábrica eram de madeira, e tinha apenas duas saídas/escadas de emergência. A legislação trabalhista da época estabelecia que as portas das fábricas deviam abrir para fora e não era permitida estar fechadas com chaves no horário de trabalho. Entretanto, na Triangle, as portas abriam para dentro e frequentemente estavam fechadas com chaves, pois os proprietários tinham receio que as empregadas poderiam roubar ou sair mais cedo.


Conforme foi demonstrado em julgamento, o fogo começou no oitavo andar, quando um trabalhador pronto para ir embora, ascendeu um cigarro e jogou o fósforo perto de um monte de tecidos. Uma vez começado o incêndio, o fogo se espalhou pelo resto do prédio muito rapidamente. As operarias, a maioria imigrantes italianas e russas, não tinham um bom domínio do inglês. Não havia indicações em seu próprio idioma que lhes indicasse a saída, nem conheciam com detalhes a estrutura do prédio, por isso entraram em pânico. Os trabalhadores que estavam no décimo andar do prédio e os proprietários que também estavam no mesmo andar, puderam salvar-se alcançando o telhado e passando para o prédio vizinho. Também escaparam do horror aqueles que conseguiram entrar em uma das três viagens que os elevadores conseguiram fazer. Mas para as empregadas que estavam no oitavo e nono andares, a única escapatória eram as portas que levavam às duas únicas saídas/escadas do prédio, que estava trancadas. Muitas mulheres, no desespero, se atiravam do prédio. O resultado final foram 146 mortes, dos quais 13 eram homens, 123 mulheres e 07 corpos não identificados.


Em 1911, o Dia Internacional das Mulheres foi comemorado pelas alemãs em 19 de março e pelas suecas, junto com o primeiro de maio. Enfim, foi celebrado em diferentes datas.


Em 1913, na Rússia, sob o regime czarista, foi realizada a Primeira Jornada Internacional das Trabalhadoras pelo sufrágio Feminino. As operárias e militantes socialistas russas participaram do Dia Internacional das Mulheres em Petrogrado e foram reprimidas. Em 1914, as principais organizadoras da Jornada ou do Dia Internacional das Mulheres na Rússia estavam presas, o que tornou impossível uma comemoração com manifestação pública.


Já na Alemanha, em 1914, o Dia Internacional das Mulheres foi dedicado ao direito ao voto para as mulheres e foi comemorado no dia 8 de março, ao que consta porque esta foi uma data mais prática naquele ano. As socialistas europeias coordenavam as comemorações do Dia Internacional das Mulheres, em torno do direito ao voto, vinculandoo à emancipação política das mulheres, mas a data específica era decidida em cada país.


Em fevereiro de 1917, na Rússia, manifestações de mulheres tomaram as ruas de Petrogrado. Eram manifestações contra a guerra, a fome, a escassez de alimentos. Ao mesmo tempo, operárias do setor têxtil entraram em greve. Era o dia 23 de fevereiro (que corresponde ao dia 8 de março no antigo calendário ortodoxo), que se comemorava o Dia Internacional das Mulheres na Rússia. Essas manifestações cresceram, envolveram outros grupos, duraram vários dias, e deram início à Revolução Russa. A mobilização de mulheres precipitou as mobilizações que tornaram vitoriosa a Revolução Russa.O número de grevistas foi em torno de 90 mil, a maioria mulheres.


Em 1921 da Conferência Internacional das Mulheres Comunistas onde "uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do Dia Internacional da Mulher, lembrando a iniciativa das mulheres russas". Assim, a partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher passou a ser celebrado oficialmente no dia 8 de março.


A partir dos anos 1960, o Dia internacional das Mulheres é retomada com destaque como uma data de luta do movimento feminino. A existência de um dia comum tem um papel significativo de mobilização. A incorporação pela ONU do 08 de março como data mundial contribui para essa retomada em larga escala, ao mesmo tempo que também incentivou um viés institucional da comemoração. Em 1977, a UNESCO reconhece oficialmente o dia 08 de março como Dia Internacional da mulher, em homenagem as 123 operarias queimadas vivas.


Neste ano de 2014, quando se completam cento a quatro anos da instituição do Dia Internacional das Mulheres, é central retomar essa história de luta. Recuperar, retomar e recontar a história do dia Internacional das Mulheres é, também, reafirmar a história das lutas das mulheres inserida na luta pela transformação geral da sociedade. É recompor um pedaço da história do feminismo que se apresenta como um elo indispensável da luta das mulheres.


A história do Dia Internacional das Mulheres traz o debate da difícil luta pela igualdade entre homens e mulheres e evidencia o caráter político dessa comemoração. Ao ser criada esta data, não se pretendia apenas comemorar. Na maioria dos países, realizam-se conferências, debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Mesmo com todos os avanços, elas ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado na luta pelos direitos da mulher.


Tanise Amália Pazzim

Psicóloga, especializada em: Psicologia Organizacional (IDG), Coordenação de Dinâmicas de Grupo (SBDG) e Gestão Pública (UFRGS). Atualmente, está realizando MBA em Comunicação Eleitoral e Marketing Político (Universidade Gama Filho). É Presidente do PTB Mulher de Porto Alegre, vice-presidente das Relações Internacionais do PTB Mulher RS (Gestão 2013-2016) e vice-diretora de capacitação do Instituto Solon Tavares (IST).